quinta-feira, 26 de junho de 2008

Telefonema

Ontem me telefonou o Ricardo, um amigo carioca que mora em Fort Myers, na Flórida.
Lembrei dos meus tempos de saudosista do Brasil. Eu sempre dizia por lá que na América é tudo “oroméric”: os carros são “automatic”, as portas são “automatic”, as pessoas são “autometic” (may I take your order?/ may I take your order?/ may I take your order?...)... A comida é meio artificial. Quando se dirige tem que parar em tudo que é sinal de “Pare”, o que é um saco (e na minha visão de brasuca, perfeitamente dispensável). Não tem atendimento gratuito em hospitais. As pessoas não se reúnem para almoço de domingo. A higiene por aqui é melhor. O americano médio é grosseiro e pouco instruído. Enfim, tem um monte de coisas que a gente sente falta do Brasil no dia-a-dia, apesar de que falando assim parecerem bobagens.
Daí comecei a indagar as queixas do meu amigo que um dia quer voltar prá nossa terrinha. “A gasolina por aqui está uma fortuna! US$4,40 o galão!” Calculei rapidamente – menos de R$1,60 o litro. E ninguém vai reeleger o presidente com preço tão absurdo. E o salário-mínimo por lá é mais de três vezes o nosso.
Então ele reclamou do preço dos imóveis que caíram, pois a crise tá braba por lá. Perguntei sobre o apartamento que ele havia comprado: ele já vendeu e, aproveitando o preço baixo, financiou uma casa de 160 mil dólares. Diga-se de passagem, não conheci o imóvel, mas uma casa americana normal tem garagem ampla, ar condicionado central, carteiro que traz – e leva também - correspondência na caixinha em frente ao gramado impecável, polícia que dispersa qualquer bagunça de adolescentes, carrocinha que recolhe cachorros vadios, ruas sem buracos, enfim, não é só a casa, mas toda a estrutura que o país oferece.
Amigo milionário na Flórida? Antes que o leitor interprete mal: ele é zelador de um campo de golfe e a esposa, enfermeira, aqui a renda familiar seria o quê? Uns R$1.500,00?
O que vai acontecer dentro de dez anos? A crise vai passar, os Estados Unidos continuarão sendo o maior mercado consumidor do mundo, a maior potência militar, o maior produtor de patentes e royalties. Tudo isso se baseando em idéias simples: respeito à livre iniciativa e interferência mínima do estado no cotidiano do cidadão, manutenção da lei e da ordem que são para todos e não para poucos, previsão de acontecimentos e provisão de infra-estrutura.
E dentro de dez anos, o que será do Brasil? A violência continuará crescendo. Os cachorros vadios continuarão pelas ruas. Adolescentes continuarão bebendo e atropelando pedestres nas calçadas e não respondendo por isso. Escândalos políticos ainda predominarão nos jornais. Os direitos básicos do indivíduo continuarão sendo desrespeitados de todas as maneiras.
E a economia, afinal, não entramos num ciclo virtuoso? Não creio, essa prosperidade alardeada na mídia é só vôo de galinha. O que é básico não está sendo resolvido. A carga tributária das empresas é cada vez maior. A infra-estrutura continua precária. A qualidade do ensino é muito baixa, sem entrarmos no mérito da educação como um todo. A desonestidade e o jeitinho brasileiro continuam predominando.
Assim, quando o Ricardo me perguntou o que eu achava de eles voltarem para o Brasil, o que eu poderia dizer, como amigo? Disse para ele ficar por lá, ora. Que ele e a esposa venham uma vez por ano matar a saudade de comer paçoca de amendoim e visitar os parentes, tudo bem, mas construir um futuro por aqui, podendo viver em um lugar melhor, pra quê?

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Teoria do Status – ou Teoria da Igualha –

Há uns 15 anos que penso na razão por que duas pessoas se atraem. Por que o gênio da física se casa com a mocinha da roça ou como o rapaz pobre consegue casar com a beldade endinheirada? Qual é a regra que rege a atratividade humana?
Em todo esse tempo, o mais próximo que consegui chegar de uma resposta é o que chamei de Teoria do Status, ou Teoria da Igualha, que quero aqui compartilhar com meus leitores.
Igualha é um termo do português do século XVIII que significava uma paridade (financeira) entre o noivo e a noiva que deveria existir para que os pais passassem a negociar o casamento dos filhos.
O mundo mudou. Os casamentos não são mais arranjados, mas a igualha não deixou de existir. O que seria ela hoje? O que define o valor de um indivíduo?
Existem três valores que definem o “statu quo” de uma pessoa, o seu potencial monetário, o seu potencial cultural e o seu potencial sexual. Os três são importantes no momento de se apresentar em sociedade.
O potencial monetário se apresenta na forma como se gasta. Quem gasta mais tem mais status financeiro.
O potencial cultural se apresenta na forma de sucesso. Quem faz mais sucesso, tem mais status cultural.
O potencial sexual se apresenta na forma de atratividade sexual, o que dispensa qualquer comentário.
Até aí, morreu o Neves, pois todo mundo sabe que ter grana, sucesso e atratividade (charme, beleza, papo, etc.) são fatores importantes para conseguir parceiros de negócios e de relacionamentos mais interessantes.
Acontece que cada valor de status é “modulado” por um respectivo contraponto.
O potencial monetário, é o que se gasta, mas também é importante considerar o que se tem para gastar. Não adianta ser um traficante de drogas com carros e dinheiro à vontade para esnobar, se não houver um lastro por trás. Um homem rico, com fortuna sólida, de família, é de alguma forma mais rico do que aquele que apenas tem o dinheiro para aquele momento. O nível econômico, portanto “modula” o nível financeiro. Para se ter mais status, é preciso não só mostrar-se rico, como também ser rico.
O contrário também é verdade. Não adianta ser um “Tio Patinhas” milionário, se não se mostrar o dinheiro que tem com carros de luxo e mansões.
O contraponto do potencial de sucesso é o grau de erudição. Aquele mais evoluído em um nível cultural é aquele que não só consegue obter excelentes resultados naquilo que faz, mas também consegue ter um nível profundo de conhecimentos. Não adianta ser uma modelo de sucesso se ao ganhar um programa de televisão se começa a falar bobagens, erros de português, etc. Assim como o grau econômico corrói o potencial financeiro do indivíduo, o nível de erudição reduz o brilho de pessoas bem sucedidas.
O terceiro fator, mais complicado de explanar, é o valor da sexualidade. O que “modula” a atratividade sexual é o caráter íncubo-súcubo do indivíduo.
Essas palavras podem ser compreendidas por incubo, “aquele que está em cima”, sexualmente falando, e súcubo, “aquele que está em baixo”.
Estar por baixo representa sempre inferioridade: pisar numa caça ou num novo planeta significa dominar. Humildade vem da palavra terra, húmus. Estar por cima, representa poder e conquista. Quem está mais por baixo sexualmente é o súcubo e quem está por cima, o incubo.
Por esse motivo, uma prostituta é mal vista na sociedade, enquanto que uma moça virgem tem maior status – a prostituta é mais súcubo -. A sociedade discrimina homossexuais não é por simples cultura, mas por um valor arquetípico do ser humano: o homossexual, principalmente o passivo e, mais principalmente ainda, o que se prostitui são mais súcubos.
No momento que escrevo, ocorreram dois casos notórios com personalidades brasileiras. O jogador de futebol Ronaldo se envolveu com travestis e a modelo Daniela Cicarelli foi filmada em uma praia fazendo sexo com o namorado. Vistos por esta teoria, o que aconteceu com eles aos olhos da sociedade e da mídia? Tornaram-se súcubos, ou seja, decaíram sexualmente. Com isso perderam contratos de publicidade, pois várias empresas deixaram de investir neles.
Portanto, para o “statu quo” sexual não interessa apenas a atratividade do indivíduo, mas também o quanto incubo ele é, quanto mais estiver “por cima” no ato sexual, melhor.

Tudo o que foi descrito acima, pode ser mais bem compreendido pela análise do gráfico em que cada linha representa um potencial humano: sexual, monetário e cultural. O que interessa de forma positiva ao indivíduo é o potencial financeiro, o potencial de sucesso e potencial de atratividade, mas como podemos perceber, a baixa economia, a baixa erudição e a “sucumbência” contam pontos negativos, destruindo ou danificando todo o potencial pessoal.
Como cada pessoa tem um determinado “número” financeiro, outro de sucesso e outro de atratividade, se descontarmos os “moduladores” econômico, erudição e de sucumbência sexual encontraremos um determinado valor gráfico, o qual chamei de Volume de Statu Quo, por se apresentar como um verdadeiro volume geométrico, um prisma. Este prisma representa o valor de igualha do indivíduo, quanto maior for o Volume de Statu Quo, maiores serão as chances de ele se relacionar com pessoas de volumes também maiores.

Essa é a resposta porque um velho rico casa-se com uma jovem bonita. O que não acontece é de uma mulher jovem, virgem, bonita, rica, de sucesso e instruída se casar com um pobre, inculto e feio, pois os volumes de statu quo seriam muito diferentes.
Dá para entender?
Volumes similares se atraem, simples assim. As pessoas só se relacionam com pessoas da mesma igualha, mesmo que aparentemente o amor e a amizade se manifestem de formas tão diferentes. As diferenças estão em um ou dois aspectos, mas no somatório volumétrico, os relacionamentos sempre se completam.

A Cura da Morte

Caro leitor:
fiz um blog chamado A Cura da Morte para reunir informações publicadas na imprensa sobre tratamentos que visam retardar o envelhecimento.
De vez em quando, visite: http://acuradamorte.blogspot.com/

terça-feira, 17 de junho de 2008

Três Notícias

Nesta semana vi três notícias sobre tecnologia que são bem mais importantes que o tímido destaque que a mídia lhes deu.
A primeira, versa sobre a invenção de uma cerâmica termoelétrica, conforme poderá ser vista neste link.
Em um primeiro momento, pode parecer apenas mais uma invenção curiosa, mas fabricar um gerador térmico de baixo custo irá ter um impacto profundo na economia mundial. Imaginemos que o telhado de nossas casas, venha a ser revestido com telhas que gerem eletricidade.
Conseqüência 1: poderemos desligar a casa da rede elétrica. Não mais blecautes e nem mais contas de luz. Conseqüência 2: não mais usinas nucleares e nem hidrelétricas. Conseqüência 3: não mais contas de água, pois poderemos ter uma máquina para extrair umidade do ar. Conseqüência 4: comida básica poderá ser produzida em pequenas estufas-robô instaladas em um quarto do apartamento, sem trabalho e com custo mínimo. Conseqüência 5: o combustível (hidrogênio) do carro poderá ser produzido pela eletrólise da água. Dá para imaginar o impacto, contando ainda com as conseqüências que ainda nem sequer sonhamos?
Ligado ainda à notícia anterior, ontem na TV apareceu a notícia do início de produção pela Honda do FCX Clarity, o primeiro carro comercial com célula de combustível. Imaginemos o impacto de produzirmos o nosso próprio combustível dentro de poucos anos. Petróleo? Cana-de-açúcar? Não. Água!
Esse é o futuro, pena que as autoridades brasileiras pensem que o neo-ciclo da cana de açúcar será a salvação da humanidade. Dentro de alguns anos, quando der uma quebradeira geral na produção dos usineiros (e o governo, com certeza, socorrê-los com os nossos impostos suados), lembre, leitor, que leu esse vaticínio primeiro aqui no Bonowblog.
A terceira notícia de impacto nesta semana foi (para mim pelo menos, pois já existe há algum tempo, eu é que estava desatualizado) o surgimento do Megacubo, um programa que permite assistir gratuitamente canais de TV (abertos e à cabo) de todo o mundo.
Conseqüência 1: A TV vai ser para todos, a hegemonia das grandes redes vai acabar. Conseqüência 2: a Internet ganhou aquilo que foi mais desejado pelo ser humano, a passividade! Clicar, digitar? Não, assistir! Chega de esforço mental e digital, queremos alienação!
Brincadeiras postas à parte, vamos à conseqüência 3: qualquer um poderá colocar o seu próprio canal de TV na Web. O impacto que houve com os blogs na informação das classes sociais que liam jornal, agora terá com as pessoas que assistem TV, isto é, os mais pobres e menos informados. De agora em diante, ficará cada vez mais difícil fazer a cabeça do populacho e usá-lo como massa de manobra ou bucha de canhão.
Não são três notícias sensacionais? Fiquei admirado que nenhuma grande mídia deu muito destaque para nenhuma das três, pois com certeza irão mudar o mundo de forma muito profunda.
Será que quando inventaram a pólvora, o papel e bússola, as pessoas das respectivas épocas perceberam as revoluções que estavam se aproximando?

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Biopirataria

Eu gostaria de aqui declarar que sou contra qualquer exigência da Índia em cobrar royalties dos produtores de manga brasileiros, apenas pelo fato de ser esta uma planta originária daquele país. Pelo mesmo motivo, não creio que eles têm o direito de cobrar qualquer tipo de comissão pela criação de gado, apesar de os bovinos serem originários também dali.
Sou terminantemente contra que países da América Central nos cobrem por importarmos deles a cana-de-açúcar sem dar nada em troca. Não devemos pagar nada aos mexicanos por nossas criações de peru e nem aos norte-americanos pela grama forquilha que serve para alimentar os nossos rebanhos.
O mesmo vale dos produtos brasileiros: acho que a macarronada italiana é um excelente uso para os tomates que são originários daqui da América do Sul, gostaria de declarar publicamente que não tenho nenhum sentimento de propriedade com relação a eles e nenhuma mágoa do país de Marco Polo.
Sartre já dizia, que não interessa o que o mundo fez de ti, interessa o que fizestes com o que o mundo fez de ti. Extrapolando a idéia, não interessam os nossos recursos naturais, interessa o que fizemos com os nossos recursos naturais.
E o que fizemos com a Amazônia? Estamos por lá com centenas de equipes, laboratórios sofisticados e técnicos treinados para produzirmos curas de milhares de doenças que afligem a humanidade com os segredos que as plantas e os animais dali escondem? Os brasileiros estão tentando contribuir com a raça humana ao tentar curar o Alzheimer, o Parkinson e outras doenças degenerativas com o patrimônio que a natureza nos contemplou dentro de nossas próprias fronteiras?
Não. Não ainda, nos diz a imprensa: aquela mancha verde lá em cima no mapa é um “patrimônio das gerações futuras”. Só que a julgar pelas políticas públicas, tudo indica que a destruição da Amazônia é um ato intencional dos nossos governantes que vem desde os tempos do Presidente Médici mais ou menos com a mesma maneira e propósito: destruir para ocupar o território e gerar mais impostos. Não estou criticando essa política, acho até correta, pois, afinal, como proteger região tão ampla, mas que é um discurso hipócrita, isso é, deixa-se desmatar e ao mesmo tempo se promove o discurso de proteção da Floresta. Literalmente falando, política para inglês ver. Portanto, pelo andar da carruagem, as gerações futuras nem sequer receberão o tão propagado “patrimônio”.
Agora, se um turista belga levar uma flor amazônica na mala para a namorada, será preso por biopirataria. Legal, né? Mas pensemos no pior, e se for mesmo um cientista malévolo que quer nos roubar a patente da cura do câncer, será que os cidadãos brasileiros ganhariam mais com o segredo guardado na cápsula do tempo equatorial ou com os benefícios de tal descoberta?
E quantas espécies são extintas diariamente por nossa incompetência em preservar a floresta? Será que se ninguém pesquisar agora, esse conhecimento estará disponível no futuro?
Quanto tempo vale uma patente? 20 anos! Menos 2 anos que é o tempo para colocar um produto em produção, quer dizer que quem descobrir um produto baseado em uma planta amazônica terá que obter lucros em apenas 18 anos, após isso a idéia será de domínio público, isso é, qualquer um poderá produzir em qualquer lugar do mundo. Voltando ao exemplo, será que não valeria a pena esperar esse pequeno tempo e, como em toda a novidade tecnológica, pagando caro pelo novo tratamento, veja-se bem que hoje sequer ainda existe, para que no futuro tenhamos a resolução definitiva e a um custo baixo de vários problemas que afligem o ser humano há milênios?
Essa bioxenofobia amazônica vem desde o tempo que os supostos vilões internacionais roubaram mudas de seringueiras para plantar na Indonésia, encerrando assim o nosso Ciclo da Borracha, como se tal fase econômica não houvesse sido acabada pela nossa própria incompetência mercadológica, e não pela perfídia alheia.
Inimigos externos querendo roubar nossas riquezas naturais? Que riquezas naturais, pois não existem riquezas naturais?! Toda riqueza é, por essência, inventada, trabalhada.
Será que vamos passar a vida inteira reclamando do azedume do limão ao invés de fazermos uma limonada com ele?

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Aristóteles: Game Over

Certas vezes fico pensando na falta que os grandes autores fazem no ensino brasileiro, pois em troca de Shakespeares e Dantes, aprendemos no colégio uma penca de autores nacionais cujas maiores obras que os tornaram notórios foi o preenchimento de ficha do Partido Comunista, alguns até nazistas notórios que viraram a casaca após a derrocada de Hitler.
No século terceiro antes de Cristo já se falava na violência provocada pelas peças de teatro. Será que as tragédias não seriam detonadoras do caos social? Afinal, será que assistir Édipo Rei não faria com que os espectadores quisessem dormir com a mãe e assassinar o pai? Aristóteles deu a resposta a essa questão na sua Poética: a função do teatro é justamente provocar a catarse das emoções, de modo que os espectadores percebam as conseqüências e não ousem praticá-las na vida real.
Pulando 2300 anos: será que os videogames violentos provocam violência?
Claro que não! São jogos catárticos. Não só não provocam, como também evitam, justamente para isso é que existe a ficção, para sanar a sociedade do lado destrutivo do ser humano.
Além disso, como proibir os games violentos, se qualquer adolescente pode baixar pela Internet? Não parece uma proibição que serve apenas para tirar a polícia de suas funções e conseqüentemente onerar ainda mais o contribuinte? Uma coisa que volta e meia me vem à cabeça é uma entrevista de Cora Ronai no Jô Soares, bem no início da Internet em que ela falava que as pessoas ainda não haviam percebido que os computadores criaram a primeira forma de comunicação sem censura da humanidade, mesmo que tentássemos, não poderíamos controlá-los. Quase quinze anos depois que assisti essa entrevista, as pessoas ainda tentam domar o impossível, colocar rédeas na Web. Seria cômico, se não fosse trágico.
Agora, cabe a pergunta. E os jornais noturnos que ensinam aos bandidos de todo o país o know how de como arrastar criancinhas pelas ruas e queimar vivos os passageiros de um ônibus, será que têm ação catártica ou são uma verdadeira escola para os criminosos? Se positivo, então por que alguns dos nossos juristas que adoram uma censurinha, não proibem?
Por incrível que pareça, os melhores telejornais são aqueles que os intelectuais torcem o nariz, aqueles de baixaria que espirram sangue pelo vídeo. A mensagem que passam é de que lugar de bandido é na cadeia, polícia é mocinho e a todo crime corresponde um castigo.
Será que o relativismo cultural que prega que índio tem direito de dar facadas em homem branco que lhe roubou as terras no ano de 1500 e que ladrão é apenas uma vítima de uma sociedade injusta é positivo para a sociedade? Onde está a verdadeira violência nas telecomunicações?
Dessa maneira, essa discussão sobre os games violentos é, além de infrutífera, já página virada no pensamento ocidental.
É uma pena que poucos saibam que a resposta para tal questão foi dada há 23 séculos.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Projetos Manhattans ou Por Que as Coisas Não Acontecem?

Durante a Segunda Guerra, o governo americano reuniu os melhores cientistas e todo o capital necessário para um esforço único na história: ser o primeiro país a construir a bomba atômica. Foi o chamado Projeto Manhattan.
Para algumas coisas eu me pergunto porque não existem mais projetos Manhattans. Por que os governos não disponibilizam cérebros e valores para a resolução de problemas cruciais?
Encontro três explicações: inércia cultural, teorias da conspiração e ninguém ganha nada com um mundo melhor.
Um exemplo é o fim do dinheiro “cash”, que eu já defendi largamente por aqui no blog. Por que não existe um esforço público para isso, já que traria inúmeros benefícios? Por experiência, percebo que a maior parte das pessoas não acredita que isso seja possível (a bomba atômica também não era!). Esse assunto é um exemplo de inércia cultural.
E o imposto único? Por que ninguém levanta essa bandeira seriamente? Afinal não ficaria mais fácil de controlar e com muito menos burocracia e corrupção? Não. Não acontece por que ninguém nos nossos sucessivos governos ganharia com isso, simples. O país ganharia, mas não aqueles que detém o poder político no Brasil.
E para os engarrafamentos, qual seria a solução? Uma a longo prazo, controlar o crescimento populacional. Não funciona porque as instituições que não querem isso, com especial destaque para a Igreja, auferem enormes lucros com grandes massas populacionais empobrecidas. Ao mesmo tempo, muitos economistas pensam que o capitalismo funciona como uma daquelas correntes da felicidade, isto é, só funciona enquanto estiver crescendo, portanto parar o crescimento parece ser complicado para eles. No entanto, quem conseguiu isso? A China, lembremos bem, o maior tubarão capitalista do mundo atual. Que dá certo, dá.
Solução para os engarrafamentos no médio prazo: construir viadutos. Basta dar uma volta por sua cidade que você perceberá que os semáforos funcionam como represas para o tráfego. O tráfego só embola porque se permite estacionar nas vias públicas e se trava o fluxo de veículos com intermináveis luzes vermelhas. Basta dirigir as três da manhã para perceber que não existe “onda verde” nas nossas cidades, vai-se parando de quadra em quadra. Como já disse aqui, o transporte público não é solução, mesmo porque é extremamente injusto que alguns andem de carro e outros apertados em ônibus e metrôs. Caro brasileiro, há quanto tempo você não vê a prefeitura construir um viaduto em sua cidade? Uns trinta anos, certo? Esse fato, eu já vejo com uma boa teoria da conspiração: governantes querem os votos dos mais pobres, por isso promovem tal demagogia do transporte público.
E as queimadas nas fazendas do país inteiro? Não bastaria que o INPE tirasse uma daquelas fotos de satélite das queimadas de que tanto se vangloriam e mandasse uma multinha bem salgadinha para o fazendeiro, como ocorre com as multas de trânsito? Será que alguém iria ousar queimar uma só árvore com um Big Brother ecológico sempre atento? A explicação parece ser uma teoria da conspiração também: os sucessivos governos do Estado brasileiro, apesar do discurso contrário para apaziguar os xiitas ambientalistas europeus, na verdade querem aumentar as áreas de plantio. A destruição das nossas matas não se dá por descontrole, conforme apregoado, mas por método.
E a fome zero? Por que não plantar árvores frutíferas nos parques e laterais de estradas? Não parece tampouco haver um interesse no país em acabar definitivamente com a fome. Diga-se de passagem, eu faço isso, guardo todas as sementes das frutas que como e jogo por aí, acredito ser uma forma bem positiva de desobediência civil. Se acabasse a fome, quem ganharia, além do povo?
Projetos Manhattans, onde estão? Soluções existem, por que não se mudam paradigmas?
Ninguém ganharia com isso! Não é da nossa cultura! Mentes diabólicas planejam nossa destruição! Alguém encontra explicações melhores?

terça-feira, 29 de abril de 2008

Conselhos aos Jovens Brasileiros

Certa vez perguntaram a Nélson Rodrigues qual conselho ele daria aos jovens e ele foi lacônico: “cresçam!”
Não sei se existe algum valor em aconselhar alguém que começa a vida. Será que todos temos que aprender, geração após geração, da maneira mais sofrida possível? De qualquer forma, gostaria de contar algumas coisas que aprendi que são muito específicas do país em que vivemos e que muitas vezes, apesar de óbvias, só percebemos depois de muitos anos vividos.
Em primeiro lugar, jovem, três dicas básicas: 1, poupe dez por cento de tudo o que ganhar; 2, contribua para a previdência o mais breve possível e tente nunca parar de contribuir e 3, faça uma faculdade qualquer.
Se você poupar 10% de cada centavo que receber, em algum tempo terá uma fortuna considerável, mesmo que ganhe pouco e isso será muito útil na sua vida.
A previdência social só aposenta aqueles que contribuem. Quanto antes você iniciar, mais cedo terá uma renda extra que será importante no final da sua vida. Existem três coisas certas na vida: que vamos envelhecer, que vamos ficar doentes e que vamos morrer. Para as três, será importante ter contribuído com a previdência.
Não interessa a faculdade e nem o curso que você fizer, pois qualidade não é valorizada em nosso país. Interessa apenas ser “dotô”. Existem duas únicas vantagens em se esforçar para passar em uma universidade pública, é de graça e os colegas são os mais capazes do estado, elevando o nível do ensino da instituição, mas não pense que a estrutura e os professores são melhores do que de uma universidade paga e nem que o seu patrão irá valorizar muito o local em que você se formou.
O curso também não interessa, pois por qualquer coisa que aprendermos com zelo, iremos nos apaixonar. Além disso, não conheço ninguém que chegue aos cinqüenta anos que não esteja cansado do que faz e ainda tenha o mesmo amor profissional que tinha aos vinte. Se não souber o que fazer, escolha direito ou contabilidade, pelo motivo que vou explicar abaixo.
Vou adiantar o seu futuro: você vai se formar, arrumar o primeiro emprego e depois de alguns anos de serviçalismo você vai perceber que existe uma coisa chamada mais-valia que é o lucro que o seu patrão retira a partir do esforço empregado com o seu trabalho. Além disso, você começará a perceber que a sua aposentadoria será vexatória.
Cuidado aí! Muitos pensam em abrir uma empresa nesse ponto para tentar retirar para si a própria mais-valia. Não largue o seu emprego para isso, acredite. Não é o patrão que paga pouco, mas 40% de impostos que você paga para o governo e mais 100% do seu salário que o patrão paga para o governo extorquir de você, ou seja, para cada 1.000 reais que você ganha, além do seu poder aquisitivo verdadeiro ser de apenas 600, o seu salário real seria de uns 2.000. Essa diferença, de R$1.400,00, o governo rouba de você para devolver em serviços absolutamente precários.
Se for abrir uma empresa, a coisa piora. Por que você acha que as empresas de sucesso são aquelas que trabalham com dinheiro cash e, de preferência, fora de horário de expediente (carrocinhas de cachorro-quente, por exemplo)? Simples, porque para abrir uma empresa, pagar todos os impostos e ainda crescer, é praticamente impossível no país, a menos que você seja um gênio administrativo, pois a extorsão do poder público é maior ainda do que sobre as pessoas físicas.
Por isso, um bom conselho, faça concurso para um cargo público na mais tenra idade possível, pois você irá ter estabilidade no emprego, se aposentará com salário integral, além de pertencer aos 10% da elite profissional brasileira.
Repito: estude apenas para passar em concurso público. No Brasil, esqueça a idéia de obter sucesso através de sua capacidade intelectual. Mestrados, pós-doutorados e larga experiência profissional e de vida, na iniciativa privada não lhe servirão para nada.
Lembre-se: quem começa a contribuir com a previdência bem cedo tem a chance de se aposentar a partir dos 44 anos e os nossos ”sábios” legisladores decidiram que os últimos anos antes da aposentadoria garantem estabilidade no emprego. Como ninguém quer contratar alguém que não possa ser mandado embora, depois dos 40 anos ficará muito difícil de conseguir ocupação, por isso você, depois de ter decidido parar de trabalhar e falido com sua própria empresa, terá de se sujeitar a ganhar menos do que sua capacidade permite. Em outras palavras, reitero, esforce-se para passar em um concurso público.
Por isso que eu disse para estudar direito ou contabilidade, pois são os cargos públicos que pagam mais...

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Até o Fim do Mundo

Salvador Dali falava em uma de suas entrevistas que existe uma deturpação no conhecimento humano, pois a busca última da ciência é descobrir a cura do envelhecimento e da morte, esse seria o grande sentido da vida, justamente um assunto-tabu, que é praticamente ignorado pelos cientistas ditos sérios.
Eu acrescentaria mais uma questão a ser levantada no quesito de busca última da ciência.
Um filme do diretor alemão Win Wenders que pouca gente viu, mas nem por isso deixa de ser uma de suas muitas obras primas é o “Até o Fim do Mundo”. Nessa película, o personagem de William Hurt procura pelo pai desaparecido, um cientista que descobriu uma máquina interessante: um gravador que reproduzia sonhos em vídeo.
Imaginemos que sensacional! Ao acordar, colocaríamos um “pen drive” no computador e poderíamos assistir em detalhes todos os momentos que vivemos enquanto dormíamos...
Falo que isso seria uma das questões últimas da existência, pois é das necessidades mais flagrantes do ser humano. Desde os tempos ancestrais, os xamãs das tribos mais primitivas tentam entrar em contato com esse “mundo dos espíritos” existente em cada um de nós.
Também os drogados, os bêbados, os yogues, os macumbeiros, os projeciologistas, os bebedores de Santo Daime, os espíritas kardecistas, os pesquisadores de EQM (experiências de quase morte), caçadores de fantasmas e outros amalucados-para-quem-vê-de-fora tentam viver experiências nessa fuga de realidade que é o nosso inconsciente.
Acontece que a seguinte pergunta é premente: e se não for irrealidade? E se realmente existir aquilo que se convencionou chamar de alma e se essa alma se desprender do corpo quando dormimos ou morremos indo para um universo em que tudo que pensamos é possível, habitado por outras infinitas almas que já morreram ou que dormem naquele momento?
Não é porque uma idéia é repetida milhões de vezes que ela se torna verdade. Por tudo que já pesquisei, não existe nenhuma prova científica de que reencarnaremos, nem que exista um Ka (corpo astral, “segundo eu”) ou algo que o valha, mas milhões de pessoas ao redor do mundo juram já ter vivido experiências assim ao ingerirem alguma droga, meditarem ou passarem por um acidente quase que fatal. Eu próprio já relatei aqui no blog alguns incidentes que aconteceram comigo ou com pessoas próximas. Com uma rápida pesquisa sobre esses assuntos na Internet, percebe-se que os relatos são tão intensos, similares e repetitivos que nos fazem pensar.
Enquanto os geriatras e os neurologistas não pararem de se debruçar sobre as doenças que afligem a humanidade e mudarem seus paradigmas para uma busca do que existe de mais fundamental na existência do homem sobre a terra, continuaremos vivendo em um mundo vago de medo e supertições.
Acredito que um dia pesquisar-se-ão esses temas com mais intensidade, só espero que o início dessas buscas científicas não dure até o fim do mundo.


segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

"Me cansa" essa vida de artista...

Na década de 80, uma amiga criou uma locadora de fantasias para festas em Porto Alegre e convidou alguns amigos para animar a comemoração de lançamento da loja. Eu fui, no papel do galã brega, estilo Zé Bonitinho.
Agora, o Emílio Pacheco achou a gravação da TV e publicou no Youtube.

Cada uma que a gente faz na vida...
Confiram, clicando na foto.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Se Amanhã Fosse o meu Enterro

O que é que eu faria antes
Se amanhã fosse o meu enterro,
Faria algo importante
Ou cometeria mais erros?

Eu iria beber com um amigo,
Ou escalaria um cerro,
Ampararia um mendigo
Se amanhã fosse o meu enterro?

Talvez em uma jornada indolente,
Pensaria em algo maligno
Ou talvez decidisse ser gente
E viver por um dia mais digno.

Se tomo o ato que trajo
Por veste que a vida me empresta
E escolho usar um andrajo
Ao invés de uma roupa de festa,
Percebo o quanto é solene
Cada segundo que cessa
E o que gratifica é perene,
O que faz sorrir, interessa.

Assim, se exilo distante
A alma em interno desterro,
Pergunto: quem é que garante
Que amanhã não seja o meu enterro?

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

A Arte da Gerência 2 – The Cargo Cult

Durante a segunda guerra mundial, a marinha americana tomou diversas ilhas do pacífico que tinham posição estratégica, o que interferiu enormemente no meio de vida nas populações de selvagens que ali viviam. Para minimizar o impacto de sua presença, traziam bens e suprimentos para os indígenas em constantes carregamentos aéreos.
Ao final da guerra, os americanos pararam de prover esses carregamentos. Alguns anos mais tarde, os antropólogos verificaram o surgimento de uma nova religião em diversas ilhas do pacífico que nunca tiveram contato entre si, o “cargo cult” (culto ao cargueiro). Os selvagens, tentando imitar as ações dos brancos construíam choupanas com estacas no alto imitando antenas de rádio, criavam descampados para imitar as pistas de pouso e falavam contra caixotes de madeira, tentando fazer com que os deuses mandassem do céu aquela mesma abundância de comida que já tinham presenciado.
Em qualquer empresa existe muito de “cargo cult”, as pessoas têm a tendência de executar coisas inúteis e sem sentido apenas porque sempre viram fazer e já observaram funcionar outras vezes. Das coisas mais difíceis para um administrador é identificar e transformar esses cultos infrutíferos em atividade produtiva.
Atitudes simples, como convencer as recepcionistas a cumprimentarem as pessoas que entram no prédio é uma tarefa árdua, pois afinal “nas outras empresas ninguém faz isso” ou “nunca cumprimentei e sempre funcionou...”
As folhas de ramais telefônicos normalmente são outro “cargo cult”. Normalmente são uma lista com os ramais dos diretores acima e os demais ramais a seguir. Cada vez que se precisa de um telefone, é preciso ficar procurando em uma lista enorme, sem qualquer grafismo mais inteligente que permita achar rapidamente o número desejado. Sugestão: eu organizo os ramais da empresa em que trabalho pela sua posição no prédio, subsolo abaixo último andar acima, quem senta mais à direita aparece mais à direita na lista e assim por diante, de modo que a procura fica mais intuitiva.
Eu nunca encontrei um comércio que investisse no visual do estacionamento. A gente chega de carro no supermercado, cheio de vontade de comprar e se depara com aquele verdadeiro calabouço medieval que são as garagens. Nada de plantas, nada de cores, nada de televisores anunciando ofertas e nem atendentes para nos entregar jornais de oportunidades. Imagine-se quanto as lojas perdem apenas porque repetem o que todos os outros fazem.
A lista de exemplos possíveis é enorme. A identificação e correção dos atos sem sentido é uma das principais tarefas de um profissional da administração, pois todos os “cargo cult” geram problemas que vão interferir no bom andamento da empresa e não adianta nada estarem ali, pois com certeza os deuses dos negócios não vão ter a sua ira aplacada com tais procedimentos.

domingo, 20 de janeiro de 2008

A Quem Interessa o Discurso Ecológico?

O discurso ecológico tem algo em comum com Uri Geller, Mãe Dinah e Juscelino da Luz, pois em ambos os casos, a imprensa dá ampla cobertura de supostos acertos e não divulga as falhas.
A ação do homem está derretendo as geleiras da Groelândia? Mentira, já se descobriu que são fatores naturais, mas quem divulgou a contra-informação? Quantas pessoas sabem que já se descobriu que florestas de pinus não deterioram a qualidade do solo, como se falava anteriormente? Mas é verdade. E pesquisadores já chegaram à conclusão que a camada de ozônio está se recuperando. As usinas nucleares se transformaram de vilãs em heroínas, pois não emitem CO2. Tomar sol faz mais bem do que mal à saúde. Quem divulga essas boas novas achadas apenas em insossas publicações científicas e notas de pés de página? À grande imprensa parece só interessar o catastrofismo.
Alguém já leu um jornal só de notícias boas? Eu conheço um que pode ser acessado neste link e não faz nenhum grande sucesso. Sangue e desgraça vendem muito mais.
Aos países frios e desenvolvidos, certamente interessa mais o discurso ecológico do que aos seus concorrentes, países tropicais e em desenvolvimento que possuem uma grande vantagem no que tange aos produtos da agropecuária (duas safras de uva por ano, árvores para celulose que crescem mais rápido, gado com produção extensiva mais barata, etc.).
E quantas ONGs, grupelhos, associações, sindicatos, etc. não ganham fortunas extorquindo dos governos apoio aos seus projetos muitas vezes totalmente vazios. E pesquisadores em universidades? E universidades e outros institutos de pesquisa? Quanta grana não corre por aí?
E quantas indústrias se desenvolveram na cola deste discurso? Quantas necessidades desnecessárias (sic) não foram criadas nos últimos anos?
Como comparação, que tal um discurso ecológico verdadeiro? Que tal limparmos rios e córregos, promovendo o saneamento básico e tratamento de esgotos para toda a população? Por que não isentarmos de impostos os carros elétricos e com células de hidrogênio? Por que as prefeituras não plantam árvores em cada canteiro vazio da cidade, inclusive árvores frutíferas em praças, parques e terrenos baldios? Por que não se esteriliza os cães e gatos das ruas que defecam e trazem inúmeras zoonozes à população? Por que não se combate de forma efetiva as ocupações irregulares e a favelização das grandes cidades?
A resposta é fácil. Porque um discurso ecológico que seja real, inconteste, simples e cotidiano não dá grana, e nem votos, para ninguém. É muito mais lucrativo comover as pessoas com o afogamento dos ursinhos polares do Ártico do que com os cachorros sarnentos da esquina. Tem um monte de gente a que interessa o discurso ecológico, mesmo quando ele não é verdadeiro.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Jogos Elétricos

Vi no jornal que as Lan Houses são o maior sucesso no verão do litoral. Existe até lista de espera para usar os computadores. Uma coisa que a nova geração não viveu foi o tempo em que não existiam jogos eletrônicos, apenas jogos elétricos, os chamados fliperamas, que também eram um sucesso na praia.
Quando criança, eu ia para Tramandaí, no Rio Grande do Sul e,sempre que conseguia descolar alguns trocados, corria para as máquinas. Eram grandes, barulhentas, vivam engolindo as fichas, mas eram sensacionais.
Eu gostava muito do submarino. Era um maquinão, com um telescópio de submarino como nos filmes, em que se colocava a ficha e começavam a passar navios inimigos no horizonte. Ao apertar um botão, disparava-se um torpedo. Se afundassem navios suficientes, se ganhava tempo extra. Depois de uma certa cota, se ganhava mais uma ficha. O legal é que nada era eletrônico, tudo era físico mesmo. Haviam navios de verdade, isto é, de plástico mesmo, passando no fundo da máquina. Quando o torpedo acertava o navio, ele se curvava e sumia pela borda do mar.
Tinha também uma máquina de aviões acrobáticos, em que se tinha de passar por uns arcos, no mesmo esquema dos submarinos. E tinha o cowboy, na qual apareciam os bandidos na frente e com um revólver, precisava-se matar. E tinha o carrinho de corrida, sempre de plástico, em que uma pista corria abaixo dele com os adversários desenhados nela. Se batesse em um dos adversários, perdia-se pontos. Em outras palavras, dá prá imaginar todos os games que existem hoje em dia, feitos de forma física, 3D, com roldanas e motores ao invés de bits e TVs?
E o futebol, como era? Eram onze bonequinhos em cada lado, correndo em vinte e duas pistas pelo campo, empurrando a bola. Dez alavanquinhas de cada lado e mais uma para o goleiro. Ao empurrar a alavanca, o bonequinho corria para frente ou para trás. Havia um jogo de vôlei, no mesmo esquema, uma mesa com um vidro por cima e um monte de buracos. Ao apertar os botões, a bola ia saltando até o campo do adversário.
Para os mais crescidinhos, o melhor era o pinball. Não eram cheios de luzes, com placares eletrônicos. Os números da contagem de pontos apareciam rolando em contadores elétricos. Tudo era feito com molas e relés que faziam um barulho desgraçado. Ao meu ver, eram muito mais divertidas do que as máquinas atuais, de visual pasteurizado.
Os últimos remanescentes dos jogos elétricos são os autoramas. Esses dias, levei o meu sobrinho em um deles e constatei uma coisa terrível: autorama não cai mais da pista. Basta acelerar o máximo e correr com o carrinho. Perdeu a graça da competição. Antes, se tinha que dosar a aceleração, havia pilotagem, hoje não, ganha o com motor mais potente, só isso.
Só sei que competir com as máquinas está perdendo a graça. Será que querem fazer com que não existam mais vencedores e derrotados até no autorama? Sei, não, parece ser coisa do PT...

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Autoconhecimento


Depois de umas férias tanto do trabalho quanto do blog, cá estamos de volta para mais um ano de novos planos e realizações.
Alguém já disse que o ser humano se conhece diante de três situações: diante de 30 milhões de dólares, diante do cano de uma arma e diante de um quadro de Goya.
Diante de Goya, eu já fiquei, conforme pode ser observado na foto acima.
Na semana passada, acabei de almoçar em um restaurante do centro e estava pagando no caixa. Quando havia acabado de passar o meu cartão, um cara do lado me pegou pelo braço, puxou uma pistola e falou: “- É um assalto, vai lá prá dentro.” Eu, bem quietinho, fui pros fundos do restaurante, daquele jeito, né? nem tão devagar que parecesse provocação, nem tão rápido que ao assaltante valesse a pena praticar tiro-ao-alvo e fiquei esperando até ele limpar o caixa.
Onde eu quero chegar com essa história? Que estou iniciando 2008 pronto para concluir o meu processo de autoconhecimento e devo anunciar ao Astral Superior que pode mandar os meus 30 milhões de dólares, pois já cumpri os pré-requisitos e estou plenamente preparado em mais essa árdua missão para o meu crescimento pessoal. Aceito também o pagamento em reais ou em cheque-presente da Koppenhagen.
Assim, como devemos ver o lado positivo em todas as situações, sob os bons augúrios do ano que principia, desejo a todos os meus leitores, um 2008 pleno.
Menos impostos! Que os carrinhos indianos de 2500 dólares saturem mais ainda as ruas das cidades, obrigando os governos a darem mais ênfase ao transporte privado, que hoje é só para poucos! Que acabe o dinheiro em “cash”! Que o carnaval caia no início de fevereiro para melhorar logo a programação da TV! Que acabe o culto à pobreza no Brasil! Que roubar e matar passe a dar cadeia também para os ricos e para os políticos...
Enfim, em 2008 desejo apenas alguns desejos simples. Felicidades.


terça-feira, 18 de dezembro de 2007

A Arte da Gerência – 1: Tipos de Lucro

Gerir uma empresa não se aprende na escola. Deveria, mas não se aprende, nada substitui o talento e a experiência. Por isso, aqui estou começando uma seqüência de dicas baseadas em alguns anos de leituras e práticas, na expectativa de auxiliar aqueles empresários e administradores que enfrentam alguns dos mesmos problemas que eu já passei.
A primeira frase que todo o gerente deveria saber na ponta da língua é de John Kennedy: “Não sei o segredo do sucesso, mas o do fracasso é querer contentar a todos.” Um bom administrador, sem deixar de escutar àqueles ao seu redor, precisa aprender a tomar decisões, tendo plena consciência de que toda e qualquer decisão tomada, por mais ínfima que seja, será criticada. Escolher significa deixar de lado um sem-fim de possibilidades para escolher apenas uma.
E qual é a escolha correta? A que dá lucro, até aí todo mundo sabe. Se uma empresa privada não gerar lucro, não irá prover empregos e nem benefícios à sociedade, pois essa é a sua razão de existência, portanto toda a previsão de receitas deverá superar o somatório dos custos e das despesas. Só que, como falo sempre, existe uma máxima da economia que diz que o objetivo de uma empresa é gerar, não simplesmente o lucro, mas o máximo lucro e essa verdade é esquecida pela grande maioria dos empresários.
E como saber qual ação que dará o máximo lucro? Normalmente se ensina que as expectativas de lucro se dão no curto, médio e longo prazos, mas eu, pessoalmente, tenho uma classificação diferente e que considero mais fácil de avaliar.
Em primeiro lugar temos os LUCROS VISÍVEIS. Um exemplo bem chão: se você fizer pão, venderá o pão e entrará dinheiro na sua padaria. Matemática simples. Ações destinadas à obtenção de Lucros Visíveis são aquelas que tratam da gerência imediata do seu negócio e interessam mais ao setor de faturamento, porque mostrarão resultados mais rápidos. Ainda no exemplo da padaria, as decisões que levam aos lucros visíveis são, por exemplo se é melhor fabricar pão de milho ou pão de batata. Qual irá gerar maior receita e menor despesa?
O ramo do conhecimento humano que estuda os Lucros Visíveis é a economia. As decisões de o que vender, em que quantidade e a que preço são amplamente estudadas pelas curvas de demanda, custo e receita marginais, que já foram citadas no Livro A Empresa Sublime .
Existem também os LUCROS PREVISÍVEIS que são tratados por aquelas ações em que se espera um retorno, mas não se tem uma mensuração muito exata de resultados. É melhor investir cinco mil em um anúncio de Internet ou em um carro de som andando pela rua? Sabe-se que ambos darão algum retorno, mas quanto? Qual seria o melhor?
Fazem parte das ações que levam a Lucros Previsíveis, a publicidade, as inovações tecnológicas, o lançamento de novos produtos e serviços e a pesquisa de novas oportunidades. A disciplina que estuda os Lucros Previsíveis, portanto, é o marketing.
Por fim, temos os LUCROS INVISÍVEIS que são ações em que sabemos que irão gerar lucro, mas não temos em absoluto como avaliar o impacto a não ser depois de ocorridas, pela análise dos balancetes passados. São as placas informativas, as instalações e pintura do prédio, a qualidade do atendimento, a decoração, os equipamentos oferecidos aos clientes, a satisfação dos empregados, a embalagem do produto... enfim, tudo aquilo que não é mensurável, mas se sabe que contribui para aumentar as receitas. Normalmente, mas não exclusivamente, são assunto de arquitetos e designeres.
É a decisão sobre esses três tipos de ações que trata a real arte da gerência, que é a da sensibilidade em se perceber o que não está funcionando e mudar com o menor impacto de custo possível e resultado. Nenhum dos três tipos de lucro é preponderante sobre os outros. A busca pelo Lucro Visível não deve jamais sacrificar as ações de Lucros Previsíveis e Invisíveis. Afastar um funcionário que rouba, talvez seja menos importante do que melhorar o atendimento do telefone, apesar de parecer em um primeiro momento a prioridade.
A própria palavra, aliás, vem do latim “priori” que quer dizer primeiro. Não existem “prioridades”, deve-se sempre decidir qual dos três tipos de ações deve ser tomada em um determinado momento, pois essa decisão muda o tempo todo.

A arte da gerência representa a criação de um mundo melhor para todos os envolvidos pela associação ali formada: Estado, empresários, empregados, atravessadores, clientes e consumidores e por isso deve ser pensada mais do que um simples jogo, como uma importante ferramenta do crescimento social.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Guerra ao Brasil

Muito se fala na possibilidade de invasão militar venezuelana ao nosso país, afinal contra quem o ditador Chavez estaria se armando? Contra os Estados Unidos? Não daria nem pro início. Contra a Colômbia? Seria o mesmo que declarar guerra diretamente ao Grande Irmão do Norte.
Em princípio, a guerra contra o Brasil parece uma idéia absurda, principalmente se considerarmos que as nossas forças militares são consideravelmente maiores, apesar de mal distribuídas, concentradas principalmente na região sul, o que até traria uma vantagem em um primeiro momento mas uma derrota provável logo a seguir.
Acontece que guerras não ocorrem devido ao potencial militar do agressor, mas do interesse de um determinado país em ser invadido, as quintas-colunas interessam mais do que a estratégia em si. Foi assim com Napoleão, que conquistou a Europa em grande parte devido ao interesse das classes burguesas de diversos países em se opor à aristocracia rural que travava o incipiente desenvolvimento industrial. Foi assim com Hitler que invadiu diversos países sem disparar um único tiro. Jamais na história duas democracias entraram em conflito armado, mas a Venezuela está longe de ser uma democracia, o que cumpre o primeiro requisito para a existência de guerra. Quem garante que o caudilho não inventará uma bravata à la Malvinas? Portanto, para que estejamos certos que isso não ocorrerá, a pergunta é: será que a quinta-colunagem brasileira não iria apoiar uma possível invasão?
Será que não existem por aqui idiotas aos montes invejando a falta de carne e de papel-higiênico do país vizinho em troca do ideal do “socialismo bolivariano”? Traficantes de drogas, integrantes do MST, empresários corruptos e políticos que armam esquemas milionários não teriam interesse em uma invasão? Com um governo totalmente simpático à Chavez, em quanto tempo será que as nossas forças armadas conseguiriam reagir? Será que suprimentos, munições e combustíveis chegariam à frente de batalha em tempo ou seriam bloqueadas propositalmente por uma burocracia mal-intencionada?
Dessa forma, não temo uma invasão da Venezuela, mas um escancarar de portas dos próprios brasileiros, isso sim.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Reportagens Que Não Existiriam se Existisse o Dinheiro Eletrônico

Estou começando aqui uma série de listagens semanais, para tentar demonstrar ad nauseum o quanto o mundo poderia mudar positivamente se acabássemos com o dinheiro “cash” e passássemos a usar apenas transações eletrônicas, conforme eu expliquei na postagem que pode ser lida clicando aqui.

11/12/2007- Dois atentados a bomba na Argélia, no norte da África, deixaram 67 mortos. A Al-Qaeda assumiu as explosões, uma delas contra um prédio da Organização das Nações Unidas. - Sem dinheiro cash seria difícil de comprar explosivos sem abrir os olhos da polícia;

12/12/2007 - Polícia descobre "fábrica de dinheiro" no bairro Boa Vista/ Curitiba - Se não houvesse dinheiro, não existiria dinheiro falso;

12/12/2007 - Mulher é morta por assaltante a caminho de Cumbica - Sem dinheiro cash não haveriam assaltos;

13/12/2007 - Grávida é libertada após passar mais de uma semana em cativeiro – Com o dinheiro migrando de uma conta à outra não poderiam haver seqüestros;

13/12/2007 – Dinheiro de Carol Castro é furtado no hotel, em Salvador – Se só existisse dinheiro eletrônico, não haveria furtos de dinheiro;

14/12/2007 - A prova da OAB foi vendida por R$2.500,00 – com dinheiro eletrônico, os envolvidos seriam rapidamente rastreados e presos.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

- Casamento Ocidental -Capítulo 1 - O SER HUMANO PRIMITIVO

1.1 Reprodução

Os animais superiores reproduzem-se por uma forma específica de reprodução chamada de sexuada, que é obtida por meio de células especializadas, que recebem o nome de gametas. Esses gametas fundem-se na fecundação, formando um ovo ou zigoto, que possui no núcleo pares de cromossomos, um de origem paterna e outro de origem materna.
A ocorrência de autofecundação é excepcional dentre os seres vivos, sendo que os encontros sexuais constituem quase que a regra geral.
Cada espécie animal desenvolveu no decorrer do seu processo evolutivo uma forma específica de possibilitar esses encontros, sendo que algumas espécies superiores desenvolveram todo um ritual de acasalamento que permite à fêmea escolher o macho mais propício, ou seja, com condições de força, agilidade, sagacidade e saúde avaliada visualmente pelo tom da plumagem ou do pêlo, cheiros, sendo que essas características são necessárias à reprodução para que sejam transmitidas geneticamente à geração futura, impedindo assim a transmissão de caracteres degenerativos.
Assim o cortejo da fêmea pelo macho constitui um importante fator de perpetuação e aprimoramento genético da vida. A seleção natural opera desta forma: primeiro selecionando espécies para que se adaptem ao meio e a seguir aprimorando essas espécies para cada vez conseguirem exercer melhor domínio sobre os demais.
Se é que pode-se usar o termo, a "intenção" da natureza é possibilitar que uma determinada espécie consiga ampliar-se para o maior número possível de indivíduos dentro de um determinado ecossistema.
A reprodução pensa apenas no bem da espécie, de forma que o único indivíduo que tem algum valor é aquele que se reproduz. É por isso que a abelha-rainha é a mais bem cuidada e toda a colméia tem a sua atenção voltada apenas para ela. O zangão só tem função biológica até o momento em que se reproduz, morrendo no instante seguinte. Entre as viúvas-negras, o macho é morto logo depois do acasalamento. A fêmea do salmão morre logo depois de desovar devido ao cansaço da subida do rio. Existem muitos insetos que vivem poucas horas e o único motivo de viverem é para que a espécie prossiga. Algumas espécies de borboletas continuam o coito, mesmo se forem decapitadas.
Para a natureza, o valor da vida é unicamente coletivo. O indivíduo não tem qualquer importância.
Além disso, em um ambiente natural, poucos representantes das espécies chegam à idade adulta. Com um feroz predador, o guepardo, menos de dez por cento dos filhotes chegam a um ano de idade e mais da metade das águias nascidas no Alasca e Norte do Canadá (tidas como um bravo animal) morrem de fome no seu primeiro inverno1. Com o rei dos animais não é diferente. Dois terços dos filhotes de leão morrem antes de um ano.
Para as espécies que não são essencialmente predadoras, esses números são ainda mais dramáticos. Para certas espécies de peixes, pouquíssimos conseguem desenvolver-se porque os pais os devoram assim que nascem. Com as tartarugas-marinhas, muitas não conseguem sequer chegar ao mar após saírem dos seus ovos, morrendo de calor ou devoradas por aves na praia.
Sendo a reprodução da espécie o único motivo da vida, os animais encontraram formas originais de dar prosseguimento às gerações seguintes.
Basicamente, existem duas maneiras de fazer nascer um grande número de filhotes, condição necessária à sobrevivência da espécie, uma vez que boa parte desses filhotes irão morrer antes de chegar à idade reprodutiva: aumentar o número de indivíduos em um único parto ou postura ou aumentar o número de partos da espécie.
Aumentar o número de partos significa aumentar também o número de encontros sexuais, portanto, a condição necessária para que se realizem esses encontros é a constante presença do macho junto à fêmea. Animais desse tipo formam casais ou bandos.
O homem é um animal que pertence ao último grupo e, portanto, temos as três características básicas dos animais superiores nos quais nascem um único ou poucos indivíduos por cada parto ou postura: a presença do ritual de cortejo como forma de aprimoramento genético, a formação de coletividades como forma de possibilitar um maior número de encontros sexuais e uma intensa atividade sexual com objetivo de aumentar o número de partos.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Onde está o dinheiro? O gato comeu? O gato fugiu?

Meu pai era engenheiro agrônomo, mas do que ele mais entendia era de economia. Nos tempos de Figueiredo e Sarney, lembro que ele falava que o maior mal do Brasil era a inflação: “as pessoas acham que está mal agora, mas não sabem a recessão que acontecerá quando parar a inflação...mas vamos ter que passar por isso, não tem outro jeito.”. Pena que essas frases não foram gravadas, pois se tornaram realidade. Baseado no meu pai, na virada do século, falei a seguinte: “qualquer governo que suceder FHC será excelente, pois o pior mal do Brasil foi solucionado.”
Não deu outra, o controle ortodoxo da economia está agora produzindo frutos para o próprio partido que o criticou. Vi um entrevistado na Record News falando que o acréscimo na produção de veículos no país no ano passado corresponde a toda a produção da Argentina. Só o acréscimo! Além do imposto de produção, isso corresponde a maior consumo de combustíveis, IPVA, seguros, etc.
Na mesma entrevista, o repórter Paulo Amorim perguntou se essa não seria a culpa pelos engarrafamentos das grandes cidades, o que foi respondido com uma outra pergunta, extremamente pertinente: se está se produzindo tanto imposto, onde estão as estradas de qualidade, as ruas mais largas e os viadutos que reduziriam esses engarrafamentos?
Para onde está indo toda essa dinheirama arrecadada? As estradas públicas estão piores do que há dez anos, isso considerando que as principais rodovias foram privatizadas, ou seja na prática a malha viária nacional conduzida pela União diminuiu. Na maioria das cidades que conheço não se construiu um único viaduto. As ruas continuam esburacadas.
Sem falarmos em outros setores. A educação é das piores do mundo, os hospitais são um depósito de infecções, os portos estão sendo assoreados mais a cada ano, o transporte aéreo virou caos, as ruas continuam cheias de mendigos, a dengue que tinha sido praticamente erradicada, voltou com força e o setor energético ameaça um novo colapso.
A roubalheira está em alta, todo mundo acompanha pela mídia, mas mesmo assim essa riqueza toda deve estar indo para algum lugar, não acredito que se tenha capacidade de se desviar tanto quanto está entrando no erário sem chamar a atenção da imprensa, vejo tudo como má gestão mesmo.
E o governo insiste em manter a CPMF. Para quê, se os impostos só são revertidos no aumento da quantidade de servidores públicos, muitos com salários extorsivos, e não em infra-estrutura para o país?
Onde está o dinheiro que, como na música, ninguém viu? Onde estão os resultados de tão apregoada riqueza?

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Palavra de Ordem

Em primeiro lugar, gostaria de agradecer a presença de meus leitores neste blog. Pelo respeito que tenho a todos, gostaria de esclarecer o meu método de trabalho.
Normalmente, escrevo o blog aos domingos e peço para minha mulher ir publicando durante a semana, por isso, não trabalho com notícias muito frescas e tento falar de idéias mais amplas do que aquelas que estão por aí pipocando em um momento específico. Tento manter uma postagem por dia, o que é tarefa árdua, por isso desculpem as eventuais falhas. A hora de postagem durante a semana é às 9.00hs e nos fins-de-semana, à tarde, de forma meio irregular.
Não posso publicar todos os comentários que eu gostaria, pois já existe jurisprudência no nosso país de que os comentários são de responsabilidade do dono do blog. Por isso, peço desculpas também por eventual censura. Normalmente não publico comentários citando nomes e nem generalizações do tipo “todo funcionário do órgão público tal é ladrão...”. Além disso, como vivo falando por aqui, por mais que se apregoe o contrário, não existe liberdade de expressão no país e os processos judiciais têm tido importante papel de cala-boca, por isso tento evitar os assuntos já proibidos, como falar de drogas, sobre raças, sobre a vida de outros brasileiros, contra religiões, sobre ladrões notórios, etc., pois posso me incomodar por isso. De qualquer forma, agradeço inclusive pelos comentários impublicáveis, pois podem servir de inspiração para futuros textos.
Publico apenas material próprio, com exceção das fotos, em que uso o critério de publicar as que eu mesmo tirei em tamanho médio e as que eu catei pela Internet, pequenas. Esse é o motivo pelo qual raramente ofereço leituras externas ao blog. Textos curtos, eu publico aqui mesmo, longos no Anexo do Bonowblog, para que este daqui fique com mais variedade na primeira página.
Tento não falar de mim, família, trabalho e nem de fofocas sobre terceiros, pois como dizia Oscar Wilde, as pessoas são assunto dos criados, os patrões discutem idéias.
Caro leitor, conto com a sua presença e compreensão, pois esse blog é para você.
Vamos em frente.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Planos de Saúde


Muito se fala nas condições da saúde pública no Brasil, mas existe uma bomba-relógio que um dia vai explodir também na medicina privada e que tem toda a relação com o problema do SUS.
Na condição de administrador de um hospital, vejo diariamente médicos conviverem com o problema de repasses de planos de saúde que muitas vezes não pagam nem os custos de exames e cirurgias. Em regra, são intermediários caros para quem paga por eles e também patrões cruéis para aqueles que recebem pelos serviços prestados.
E a tendência é a de cartel, os grandes planos vão comprando os pequenos até o ponto de ficarem dois ou três deles dominando o mercado e ditando as regras.
Entra aí uma questão de liberalismo. Os planos de saúde têm acesso à publicidade, os médicos, por questões éticas, não, ou seja, um médico iniciante não consegue se estabelecer um consultório facilmente se não contar com a divulgação dos seus serviços por grupos privados, a menos que coloque preços vis nos seus serviços, prejudicando toda a categoria. O mesmo vale para hospitais e laboratórios.
Apesar, portanto, de uma aparente liberdade de mercado no setor, esta não existe plenamente, pois está cada vez mais controlada por grandes empresas.
Este problema só não é mais flagrante porque a economia e a população brasileira estão crescendo sem que a formação de médicos acompanhe no mesmo ritmo, mas a tendência é a de levar o Sistema Único de Saúde ao caos (imaginando-se que ainda não levou). Matemática simples: se o SUS paga R$8,50 por uma consulta, um médico que cobrasse R$15,00 em seu consultório teria um lucro enorme e pacientes a granel que pagariam barato por uma consulta particular.
O que faz o intermediário? Paga R$20,00 para o médico e cobra outros vinte do paciente, na forma de mensalidade e co-participação. Dessa maneira, todos saem perdendo: o paciente por pagar caro pela sua saúde, o médico que não recebe todo o potencial que o mercado poderia pagar e o sistema público de saúde, que não consegue competir em igualdade de condições com a previdência privada.
Como se poderia solucionar estas distorções? Criando-se um sistema paralelo de saúde. Uma listagem de médicos, centrais de exames e hospitais que aceitassem oferecer serviços particulares pelos preços que os planos de saúde pagam para eles, pois na verdade é esse o atual valor de mercado dos serviços. Se um exame que custa particular R$150,00 pudesse ser oferecido por R$40,00, que é o valor pago pela maioria dos convênios, será que muitas pessoas iriam preferir perder o seu tempo numa fila de SUS?
Idéia a se pensar.

domingo, 9 de dezembro de 2007

A Física do Caos

De repente, estou atônito e passivo
Diante os teus olhos, dois buracos negros
E dos teus lábios, uma tira de Möbius,
Dentro dos quais tudo é relativo.
Aqui, teus predicados sobressaem
E tua beleza é vida e arte,
Não me serve mais Descartes
E posso jogar fora Einstein.
Para compreender tuas lides
De nada mais me vale Euclides,
Pois como reduzir teu seio a uma maluca equação
E nomeá-lo como parabolóide de revolução?
Se teu corpo é paisagem bucólica,
Como chamar tua pele de curvatura hiperbólica?
Ao teu leito nada se sabe, tudo se intui,
O espaço se curva ao teu jeito,
O tempo nem sempre flui,
E o meu deficiente pensamento material
Não serve mais no teu mundo polidimensional.

Castelo de Coral

Eu nunca havia me interessado em conhecer o Castelo de Coral que, como o nome diz, foi construído inteiramente com blocos de corais por um eremita tcheco que vivia sozinho em Miami no início do século passado. Ninguém sabe como ele conseguiu trazer essas pedras enormes e empilhar umas sobre as outras, o segredo morreu com ele.
No dia que tirei esta foto, estava passandocasualmente pela frente e, se não estivesse sentado no carro, teria caído: o troço fica a uns dez quilômetros do mar. Como esse cara conseguiu?

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Dinheiro Eletrônico

A todo momento se ouve falar que o mundo e o país estão perdidos, não têm solução e que luz no fim do túnel está cada vez mais fraca.
Há solução, sim. Se o mundo está corrompido pelo dinheiro, acabemos com ele, ou melhor, acabemos com o dinheiro “cash”. Alguém já viu um guarda de trânsito ser subornado com cartão de crédito? E o político corrupto? Alguém já viu um com cartões-refeição escondidos na cueca? Traficantes de drogas fazem a pergunta se o cliente vai pagar com dinheiro ou cartão?
O mundo não é cheio de dificuldades, como se preconiza por aí. Existe apenas um único grande problema, o numerário, o dinheiro em espécie, que é o que causa um sem-número de males. Então, passemos a criar um meio para extinguir o “cash” e fazer com que toda a população use apenas o dito dinheiro de plástico.
A pergunta não é se isso vai acontecer um dia, mas quando acontecerá. O meio eletrônico já foi plenamente inventado, não estamos falando em ficção científica ou futurologia, apenas em políticas para melhorar consideravelmente a vida de todos. Estamos tão acostumados com este paradigma de indignidades, que não percebemos que existe uma solução rápida e simples para as iniqüidades do mundo.
Publiquei no Anexo do Bonowblog uma monografia defendendo a idéia de que isso é possível, lucrativo e inexorável do ponto de vista do avanço da tecnologia.
Vale a pena ler.
Boa leitura!

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Estudo que Visa Eliminar o Dinheiro em Espécie e Implantar um Dinheiro Eletrônico

Com objetivo de criar um sistema que ao mesmo tempo traga maior segurança e comodidade em transações de negócio e também a eliminação radical de grandes problemas que afligem a humanidade há séculos, criou-se o presente trabalho que tem por proposta eliminar o dinheiro em espécie e implantar um dinheiro eletrônico, de forma diferente daquele meio usado pelas operadoras de cartões de débito ou de crédito.
O método de pesquisa busca um viés diverso: o de pensar um sistema que funcione tanto “on line”, como “off line” de modo a possibilitar o uso irrestrito de tal meio de troca. Espera-se com isso implantar uma maneira de praticamente acabar com a corrupção do meio político, bem como em qualquer outra atividade ilícita.
Tivemos como resultado que é, sim, perfeitamente possível tal antigo sonho da humanidade, devido aos recentes avanços tecnológicos. Além disso será fator importante de desenvolvimento do país e precisa ser pensado muito rapidamente.
A conclusão é de que a implantação do dinheiro eletrônico é inexorável no processo histórico da humanidade e temos por questão a ser debatida se o nosso país irá tomar a dianteira ou ser obrigado no futuro próximo a adquirir tal conhecimento de outros desenvolvedores, pois o meio de obtenção de tal feito já está perfeitamente disponível e precisa ser aproveitado
.
>>> Este é o resumo da monografia que vou comentar na postagem de amanhã. Caro leitor, tome tempo para ler no fim-de-semana, pois vale a pena. É uma espécie de panacéia para a maioria dos problemas nacionais.

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Viagens de Trem


Muitos jovens não sabem disso, mas no Brasil já se viajou de trem. Na década de setenta, quando eu era criança, viajei muito.
Até 1969, o trem para Santa Maria, saía às dez horas de Porto Alegre, da estação que ficava mais ou menos onde hoje é o atual Viaduto da Conceição. Em 1970, foi inaugurada a nova estação, na Rua Voluntários da Pátria, que permaneceu ali até a inauguração do Trensurb.
Eu viajei algumas vezes no trem da foto, o Minuano, que, como o vento que lhe deu o nome, passava muito rápido. Quando o trem parava na estação, minha mãe me jogava para dentro e já partíamos. Devia ficar menos de cinco minutos na plataforma.
Mas o bom mesmo para uma criança era o Noturno. Era um trem que partia às 10 da noite de Porto Alegre e chegava em Santa Maria lá pelas 6 da manhã. Minha família viajava no vagão-dormitório, que consistia em cabines com beliches. Meus pais ficavam em uma cabine e eu e minha irmã, em outra, ambas conectadas por uma porta. Em cada cabine havia uma mesa, banquinhos e uma pequena pia, com torneira de alavanca, que só saía água enquanto se ficava apertando. Havia um cheiro de DDT no ar e logo que o trem saía, eu caminhava com meu pai até o vagão-restaurante para comer um sanduíche e depois voltar para dormir. De vez em quando, íamos passear pelo trem. tinha a segunda classe (bancos de pau), a primeira (bancos estofados que podiam ter os encostos virados, ficando frente a frente com os passageiros de trás) e o vagão pullman (poltronas reclináveis).
Dormir com o sacolejar e o barulhinho do trem era uma maravilha que acho que nunca mais vou experimentar. De vez em quando, acordava no meio da noite, abria a veneziana da janela e ficava olhando o trem parado em alguma estação.
O café da manhã era em Santa Maria, onde fazíamos a baldeação para subir a serra em um trem que ia até Cruz Alta. Muitos anos depois, evoluiu-se, e o mesmo vagão que partia de Porto Alegre, era trocado para o trem da outra linha, de modo que não precisávamos carregar as bagagens.
Lá por 1978, surgiu o trem Húngaro, que era de um conforto só, com vidros espelhados, mesinha nas poltronas e serviço de bordo, como os dos aviões. Eu adorava o pudinzinho de pão que era servido de sobremesa.
Vários estados tinham linhas de trens como estas (tinha trem Húngaro em São Paulo, ligando à Santos). Imaginemos como vários dos problemas rodoviários do nosso país não teriam acontecido se tivéssemos mantido os investimentos no setor ferroviário.
Bem, para quem não esteve por lá naquela época, basta apenas imaginar, mas para quem viveu, ficam as saudades. Muitas.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

E Agora?

Recentemente, citando profundos estudos, a revista Slate publicou um artigo sobre as novas pesquisas científicas que concluem diferenças de QI entre diversas raças humanas.
Depois da descoberta que o sol não anda ao redor da terra e de que o homem não foi feito de barro, talvez essa seja a descoberta científica que maior dano criará ao pensamento cristão e suas conseqüências, o rousseauísmo e o socialismo. E agora? Como afirmar que todos os homens são iguais se a genética interfere na inteligência. A sociedade é que nos corrompe? Esta bobagem foi recentemente coberta com a pá de cal dos avanços do conhecimento científico. Rousseau foi definitivamente superado, hoje em dia ninguém, a não ser alguns de nossos governantes obtusos, pode afirmar e pretender igualdade social, pois as pessoas são intrinsecamente diferentes.
Crianças orientais subnutridas criadas por pais americanos têm em média mais inteligência do que os seus irmãos brancos e bem alimentados. A teoria do ambiente foi posta a terra por estudos como esse.
“Racismo é elitismo menos informação”, diz lá pelas tantas a reportagem da Slate. A grande lição desses novos conhecimentos não é o de fomentar uma corrida pela desinformação, mas o de pretender valorizar o indivíduo. A média de QI de uma raça é maior do que a de outras. As mulheres de ancas largas normalmente são mais inteligentes do que as de ancas estreitas. Os primogênitos são mais inteligentes do que os caçulas. Como será que fica uma judia (povo considerado pelas pesquisas como o mais inteligente) caçula e de ancas estreitas se casar com americano de origem latina e primogênito? Como serão os descendentes? Será que a matemática é tão simples assim?
Por tudo isso, eu vou contra as oposições da dita direita brasileira quando contesta o sistema de cota para negros nas universidades brasileiras. Normalmente se fala que é uma lei que fomenta o racismo, mas o buraco é bem mais embaixo. A questão não é essa, mas a de que é uma proposição racista em si, o fato de a longo prazo fomentar o racismo é o de menos.
A lei pressupõe que em igualdade de condições, os negros não têm a mesma capacidade intelectual dos brancos. Esse é racismo implícito. Por que não estabelecer cotas para brancos em relação a nipo-brasileiros, uma vez que proporcional à população, têm presença maciça nas universidades de São Paulo e Paraná? E de caçulas em relação a primogênitos? Aliás, nessa eu entro, pois sou o caçula da família!
Já passei em vários vestibulares, sendo dois em universidades públicas, com meu próprio esforço e capacidade. Será que uma cota para filhos caçulas não iria me inferiorizar perante os meus colegas? Será que se eu quisesse entrar hoje em uma universidade seria mais importante uma lei que me protegesse ou debruçar-me por sobre os livros e estudar arduamente?
Grupos sociais têm diferenças entre si? E daí? Será que somos indivíduos ou apenas uma colônia de formigas?

domingo, 2 de dezembro de 2007

Amoral

Vê o mar que arrebenta a onda
E a onda que arrebata o vento
E o vento que raspa a areia da praia.
E vê a matança de um porco,
A gangrena de um mendigo
E a beleza de um afogamento.
Vê o orvalho da manhã na azaléia,
Um beija-flor no hibisco,
Um raio de sol na vidraça,
A enchente de um rio barrento,
Uma placa de ônibus,
Um cachorro latindo longe.
E vê um vulcão dizimando uma aldeia
Um recife quebrando um barco
E a lua minguante no céu.
Vê o mundo e percebe,
Sem conformismo ou derrota.
Percebe a harmonia da desgraça,
A tristeza sutil da beleza
E a felicidade da dor.

Riverfront


sexta-feira, 30 de novembro de 2007

O Novo Desfecho

Corria o último ato do último dia da temporada e a casa estava quase completa. Amigos e familiares de todo o elenco haviam comparecido para as despedidas. O cenário já estava desgastado pelo uso: aquela sala de estar que durante os ensaios tinha sido alvo de tantas brincadeiras, agora transmitia um tom triste porque lembrava-nos os bons momentos que passáramos juntos naquele período.
Eu era o vilão da peça e estava me sentindo particularmente vivo naquela noite. A atriz que fazia o papel da mocinha parecia nervosa, talvez devido à emoção de estar dizendo as suas falas pela última vez. O filho bastardo tropeçou no texto, como de costume, mas isso não comprometeu em nada o espetáculo porque a energia que corria sobre o palco e conseqüentemente dentro da platéia era tamanha que não permitia a ninguém perceber as pequenas falhas. Todo o elenco que não estava em cena foi para trás das pernas para apreciar o trabalho dos colegas, e eu concentrava-me para a minha entrada final na qual seria desmascarado e sofreria as conseqüências da vileza.
Veio a minha deixa.
No momento em que botei o pé no palco, os meus olhos tiveram um brilho diferente daquele que nos proporciona a vara de iluminação. Num relance olhei a cena e percebi que aquele seria o último momento em que o vilão estaria encarnado em mim, depois ele deixaria de existir para todo o sempre. Ali compreendi a minha situação. Como em toda a minha vida eu achara falso e piegas aquele final, revoltei-me ao compreender o quanto era injusta a minha derrota noite após noite e resolvi que daquela vez, a última vez, seria diferente. Com passos decididos percorri a boca de cena, como sempre sem tirar o chapéu e nem a capa de gabardine, e me sentei na poltrona da sala de estar, como antes tantas vezes eu havia feito. Conversei normalmente com a mocinha. Quando entrou aquele que iria revelar todas as minhas baixezas, eu não o deixei falar ou agir. Peguei-o pelo colarinho, cuspi no seu rosto e para a estupefação geral joguei-o para fora de cena. Mantive-me altivo no centro do palco e alguns instantes se passaram até que ele tomou coragem e ousou voltar para que eu lhe desse um soco que, creio, ter deslocado o seu maxilar, fazendo-o desistir dos seus propósitos. Depois enlacei a mocinha com os braços e beijei-a com todo o meu desejo.
Eu finalmente era um personagem completo.
Quando o ator que me criara finalmente percebeu o que estava acontecendo já era tarde demais, pois eu tinha o controle perfeito da situação e chegara ao ápice da minha vileza. Ele entrou em cena decidido a me aniquilar, mas falhou ao não perceber que não estávamos em igualdade de situação apesar de compartilharmos do mesmo corpo e usarmos os mesmos figurinos. Eu era forte e tinha ombros largos como todo o bom vilão, enquanto ele apenas usava ombreiras, sem falar no fato de que era míope. Além disso ele me criara com todos os requisitos necessários para a personificação da maldade. Tentou me bater, mas ele lutava como um colegial, enquanto que eu usava de todos os golpes baixos para o derrotar. Logo o deixei caído no palco, voltei-me para a mocinha e avancei com passos largos, decidido a tê-la para mim. Fui interrompido por um impacto nas costas. Virei-me e vi o meu criador com o seu punhal erguido no alto para um novo golpe. Fui mais rápido. Para a minha sorte o punhal que o ator usava era de mentirinha enquanto que o meu, de personagem, era, além de afiado, envenenado.
O sangue azul jorrou quando lhe enchi o coração.
Acabei ficando com a mocinha.
Naquela noite, o público aplaudiu em pé.

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

Ditadura da Maioria

A recente declaração de nosso presidente de que a Venezuela é um país democrático ao extremo, demonstra em uma primeira vista uma descarada mentira, mas na verdade apenas escancara um total desconhecimento sobre o que é democracia. Isso não vale só para o chefe do executivo, mas ilustra o que de comum há ao pensamento de muitos dos brasileiros.
O conceito foi formulado por Aristóteles há uns 24 séculos. O filósofo defendia a idéia de que a democracia (demokratia) é um sistema injusto de governo em contraposição à politeia que seria a forma justa de governar. Os romanos traduziram politeia por “coisa pública”, res publica, palavra que chegou até nós como república.
Ainda que tenhamos misturado as duas palavras, os conceitos são bem distintos. Originalmente “demokratia” era a imposição da vontade da maioria. Acontece que a maioria nem sempre está correta. Como exemplos, podemos citar a questão da pena de morte ou da questão de acabar com os impostos, que são inquirições que não podem ser resolvidas por plebiscito simples sem chegarmos a resultados desastrosos para a sociedade.
Esse é o motivo por que foi criada a democracia com uma representação bicameral, que no nosso caso são a câmara e o senado. Toda a decisão de um grupo de representantes diretos do povo tem que ser confirmada por representantes dos estados, muitas vezes com visões e interesses distintos. A isso chamamos de república.
Pode-se falar o que se quiser do sistema político brasileiro, ele é cheio de defeitos, mas ninguém pode dizer que ele não é inteligente e justo.
Por isso que eu vivo dizendo aqui no blog que não conheço uma real oposição ao PT. Nós não temos muitas pessoas com mentalidade republicana, pois a grande massa populacional brasileira acredita no fundo do coração que a vontade da maioria deve ser imposta aos demais. As pessoas acham certo que se um grande grupo sai de um jogo de futebol gritando e quebrando tudo, os demais devem acatar passivamente. Se uma multidão ficar tocando música sertaneja alta, todos os outros deverão curtir juntos.
Nesse sentido, Chavez é um democrata no sentido primitivo da palavra, sim, Lula tem uma certa razão. A pergunta a ser feita é se é esse o modelo que deve ser seguido. Será que a vontade da maioria não se constituiria uma ditadura? E mais, será que a vontade da maioria não é facilmente manuseada por um líder hábil, como tantas e tantas vezes a história nos tem demonstrado?
Tão poucos pensam de forma republicana no país que não temos sequer um partido que siga esta linha, por isso, ao que tudo indica, muitos de nossos líderes continuarão seguindo com as suas pequenas mentalidades de perfeitos idiotas latino-americanos.

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

The Day After

Após a aprovação da lei 8112/90, que trata do regime jurídico do trabalhador da administração direta, autarquias e fundações, criou-se uma elite no país que muitas vezes acredita estar no éden profissional, a dos servidores públicos. Afinal de contas, desde Dom João VI, os sucessivos governos vêm criando cada vez mais cargos com a intenção de criar um exército de burocratas que os apóiem tanto do ponto de vista legal, quanto de uma pretensa legitimidade.
Com isso, chegamos a um ponto que os concursos públicos se tornaram o sonho profissional de milhões de brasileiros. Afinal, quem não quer salários acima da média de mercado para as mesmas funções, benefícios muito superiores aos dos celetistas e estabilidade no emprego?
Acontece que a única coisa permanente na vida é a mudança. Esta corrente da felicidade estatal um dia vai acabar, pois é justamente isso que ela é: uma grande pirâmide que fornece lucros apenas àqueles que chegaram antes. Existe um ponto de ruptura entre os que pagam e os que usufruem dos impostos, entre a classe que produz riqueza e a que dita as regras, ponto que quando uma vez superado, o estado com um todo entrará em crise. Este ponto se dará no momento em que os impostos arrecadados começarem a chegar perto dos lucros obtidos com os diversos empreendimentos que constituem a economia nacional.
Devemos lembrar que no século XVIII, a inconfidência mineira e diversos levantes civis ocorreram porque Portugal cobrava em impostos um quinto dos ganhos do país e hoje o nosso governo está cobrando perto de quarenta por cento, ou seja, o dobro dos tributos que há dois séculos motivaram uma série de revoltas populares.
Quando atingirmos o encontro das curvas de máxima possibilidade de pagamentos de impostos com a máxima capacidade do estado em ser onerado, a economia nacional abruptamente entrará em colapso, com a síndrome que todos nós conhecemos: inflação, miséria, falências, decadência das instituições democráticas, etc.
E quem passará a pagar a conta quando isso ocorrer? Os únicos que podem ser esmagados nesse sistema todo: os servidores públicos de baixo escalão.
Assim, o que hoje parece ser uma panacéia profissional, tem tudo para virar um pesadelo nos médio e longo prazos. O nosso atual governo, apoiado em grande parte por muitos servidores públicos, sindicatos e associações de funcionários, diga-se de passagem, aponta para um calote já visível no horizonte. Que aqueles que pensam estar em uma situação privilegiada não se acomodem, não pensem que estão navegando em águas seguras, pois o navio que está fazendo água pode naufragar levando ao fundo tanto aqueles que viajam nas redes do convés, quando os passageiros dos camarotes.

terça-feira, 27 de novembro de 2007

Profissões

Algumas profissões têm um mistério intrínseco que os comuns dos mortais não conseguem alcançar. É claro que existem muitas exceções, toda a generalização é incorreta, aquela coisa toda, mas até agora não consegui compreender certos fatos.
Por que será que muitos padres têm voz de padre? Paulista fala como paulista, gaúcho fala como gaúcho, nordestino fala como nordestino, mas um padre paulista fala como padre, não como paulista. Uma coisa que é dificílima na vida é alguém perder o seu sotaque regional, como é que eles conseguem?
E médico? Por que será que tanto médico tem caligrafia de médico? Assim como os arquitetos têm (ou pelo menos tinham antes dos computadores) aulas para tornar a caligrafia mais legível, será que aprendem alguma norma para escrever de forma que apenas os farmacêuticos consigam entender? Faz sentido, poderia ser uma regulamentação de saúde, para evitar auto-medicação pelos pacientes, sei lá.
E por que casa feita por engenheiro é diferente de casa feita por arquiteto? Está certo que ambos têm uma meia dúzia de disciplinas diferentes na faculdade, mas basicamente aprendem o mesmo, a erguer quatro paredes e colocar um teto em cima. Como podem existir um monte de arquitetos famosos, glamourizados pela mídia, e tão poucos engenheiros civis na mesma situação? Será que umas poucas aulas de história da arte e de artes plásticas fazem tanta diferença assim?
E por que muitos dentistas insistem em conversar com a gente quando estamos com a boca aberta, sabendo que não podemos responder? Já encontrei vários barbeiros caladões, mas um dentista, nunca, todos os que conheci falavam pelos cotovelos.
São mistérios que acho que nunca vou desvendar.

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Crônica: Telefone Público

Uma coisa que não nos ensinam nas escolas da vida é como agir quando acontece de estarmos passando pela rua e tocar o telefone público. Em um belo dia, eu estava indo para o trabalho e lá estava ele, tocando insistentemente, pedindo para que eu atendesse. Não pude resistir e assim o fiz:
- Funerária infantil Fantasminha Camarada, boa morte!
- Co-como? – Respondeu uma voz feminina do outro lado.
- Funerária infantil Fantasminha Camarada, senhora. Como posso lhe ajudar?
- Eu queria falar com o Joel.
- Ele está ocupado. Houve um acidente com uma van escolar e acabamos de receber três pacotes.
- Pacotes?
- Sim, três defuntinhos.
- Mas ontem à noite ele me disse que era técnico de construções!
- Ah, o Joel diz isso prá todas.
- O quê? Escuta, eu preciso muito falar com ele.
- Não pode, tem muito sangue prá raspar e o menino gostava do Batman, ele já deve ter saído prá comprar a fantasia prá vestir o corpo pro enterro.
- Que coisa horrível!
- Horríveis são aqueles terninhos brancos que deixam as crianças parecidas com o Tatoo da Ilha da Fantasia. Coisa cafona. E no acidente teve também duas menininhas gêmeas que vão pro além vestidas de fadinha, a senhora não acha que vai ficar uma graça?
- Como vocês podem fazer isso?
- Com maquilagem pesada, pois com o impacto fica muito deformado.
- Vocês são doentes!
Desligou.
“Que mulher mal educada”, murmurei.
Baixei o telefone e segui o meu caminho com a certeza de ter criado mais uma descrente a respeito do sucesso da raça humana.