segunda-feira, 2 de julho de 2007

Mas Bah!


Quando falo que sou gaúcho em outros estados brasileiros, logo escuto expressões de admiração: povo trabalhador, honesto, hospitaleiro... Por isso, é melhor explicar o que é um gaúcho na verdade, pois percebo que na cabeça dos demais brasileiros existe um preconceito, ora para o caráter anedótico, histriônico, ora em uma idealização que também não existe de verdade.
O primeiro fator que devemos considerar é que o Rio Grande do Sul nunca possuiu uma economia que necessitasse de mão-de-obra escrava, não havendo o conflito entre casa grande e senzala como no restante do país. Pelo contrário, o estancieiro até há pouco tempo, acordava de madrugada e ia “matear” com os peões no galpão para depois sair para a lida do campo. Por isso, existe por lá uma idéia de igualdade que não existe, talvez, em local nenhum do mundo: status, esnobação e pedantismo são valores bem pouco prestigiados pelos pampas.
Segundo, existe um conservadorismo reacionário tremendo. O governo do estado simplesmente fecha parques (como o do Lami e do Itaimbezinho) para que ninguém apareça por lá e pise nas flores! E os parques ficam por anos fechados até surgir dinheiro para reabrir. Por outro lado, os parques urbanos de Porto Alegre não possuem calçamento, pois na mente rousseauísta do gaúcho a natureza é boa, não pode ser mudada e o ser humano está por lá apenas para atrapalhar.
No entanto, a característica mais marcante no pensamento gaudério é mesmo o positivismo. Porto Alegre, junto com o Rio, Curitiba e Paris, possui um dos únicos 4 templos positivistas do mundo. As ruas da cidade recebem o nome de positivistas: Demétrio Ribeiro, Benjamim Constant, Floriano Peixoto, Carlos Von Konzeritz... Os principais colégios públicos têm nome de líderes positivistas: Júlio de Castilhos e Parobé. Até a esquerda gaúcha recebe influência positivista (o pai de Luís Carlos Prestes era positivista).
Na mente do gaúcho é preciso manter as tradições (os primeiros CTGs foram criados por positivistas), tomar posição de forma maniqueísta: ou você é chimango ou maragato, gremista ou colorado, unionista ou sogipano (são clubes de Porto Alegre), petista ou anti-petista, não existe meio termo. O déspota esclarecido, o sábio salvador da pátria é o supra-sumo do político gaúcho e não é mera coincidência que os ditadores brasileiros sempre saíram do extremo sul: Getúlio, Jango, Médici, Geisel... e a ala mais xiita do PT. O positivismo não é uma idéia absurda do século XIX, não, ela continua por aí, agindo no cotidiano, travestida dos mais diversos populismos.
O Rio Grande até seria insignificante, uma Lilipute do paralelo 30, se não fosse por um pequeno detalhe: nós, os gaúchos, temos índole imperialista. Com avanços em tecnologias do campo, dominamos todo o oeste do Brasil, até a Amazônia. Existe CTG até no Japão. A república do Catete e depois a do Alvorada, desde que acabou a política café-com-leite, vem sofrendo mais ou menos influência da política churrasco-com-chimarrão. Observem: em todas essas merdanças que temos assistido na política nacional, sempre tem um dedinho de gaúcho e não estou falando em corrupção (diante do panorama nacional, o político gaúcho é até que razoavelmente honesto), mas no apoio a ditadores de republiqueta, seja no papel de caudilho, de eminência parda ou em altos cargos de judiciário.
Uma outra confusão muito comum para o turista que visita aquele estado é não perceber que existem vários Rio Grandes: o açoriano, o imigrante e o pampeano. A parte onde existe infra-estrutura hoteleira e turística é a dos imigrantes, é onde existem cidades sem analfabetos, indústrias de ponta e pensamento conectado com a modernidade. É o mesmo fenômeno que acontece no Vale do Itajaí, na serra carioca e na cidade de São Paulo, progresso trazido por mentes diferentes daquelas encontradas por aqui. Nas regiões onde se encontra o gauchão, pilchado e falando espanholado, existe um subdesenvolvimento gritante, nível alto de analfabetismo, contratos não são honrados, atraso em todos os aspectos de análise social.
Mas bah! Para nós, os gaúchos, todos são iguais nas diferenças. Até os pobres são iguais aos ricos... desde que não se metam onde não foram chamados!

3 comentários:

Anônimo disse...

Olá, vc sabe a história dos Bonow no Brasil?

Luiz Bonow disse...

Mais tarde eu respondo sua pergunta.
Luiz

Günther disse...

Muito bom, o negócio é impor respeito e humildade mesmo, é assim que nós crescemos, neh?
=)