quinta-feira, 29 de novembro de 2007

Ditadura da Maioria

A recente declaração de nosso presidente de que a Venezuela é um país democrático ao extremo, demonstra em uma primeira vista uma descarada mentira, mas na verdade apenas escancara um total desconhecimento sobre o que é democracia. Isso não vale só para o chefe do executivo, mas ilustra o que de comum há ao pensamento de muitos dos brasileiros.
O conceito foi formulado por Aristóteles há uns 24 séculos. O filósofo defendia a idéia de que a democracia (demokratia) é um sistema injusto de governo em contraposição à politeia que seria a forma justa de governar. Os romanos traduziram politeia por “coisa pública”, res publica, palavra que chegou até nós como república.
Ainda que tenhamos misturado as duas palavras, os conceitos são bem distintos. Originalmente “demokratia” era a imposição da vontade da maioria. Acontece que a maioria nem sempre está correta. Como exemplos, podemos citar a questão da pena de morte ou da questão de acabar com os impostos, que são inquirições que não podem ser resolvidas por plebiscito simples sem chegarmos a resultados desastrosos para a sociedade.
Esse é o motivo por que foi criada a democracia com uma representação bicameral, que no nosso caso são a câmara e o senado. Toda a decisão de um grupo de representantes diretos do povo tem que ser confirmada por representantes dos estados, muitas vezes com visões e interesses distintos. A isso chamamos de república.
Pode-se falar o que se quiser do sistema político brasileiro, ele é cheio de defeitos, mas ninguém pode dizer que ele não é inteligente e justo.
Por isso que eu vivo dizendo aqui no blog que não conheço uma real oposição ao PT. Nós não temos muitas pessoas com mentalidade republicana, pois a grande massa populacional brasileira acredita no fundo do coração que a vontade da maioria deve ser imposta aos demais. As pessoas acham certo que se um grande grupo sai de um jogo de futebol gritando e quebrando tudo, os demais devem acatar passivamente. Se uma multidão ficar tocando música sertaneja alta, todos os outros deverão curtir juntos.
Nesse sentido, Chavez é um democrata no sentido primitivo da palavra, sim, Lula tem uma certa razão. A pergunta a ser feita é se é esse o modelo que deve ser seguido. Será que a vontade da maioria não se constituiria uma ditadura? E mais, será que a vontade da maioria não é facilmente manuseada por um líder hábil, como tantas e tantas vezes a história nos tem demonstrado?
Tão poucos pensam de forma republicana no país que não temos sequer um partido que siga esta linha, por isso, ao que tudo indica, muitos de nossos líderes continuarão seguindo com as suas pequenas mentalidades de perfeitos idiotas latino-americanos.

Um comentário:

kleverson disse...

Olá,

concordo. Mesmo antes de começar a ler mais sobre sistemas políticos eu já percebia algumas coisas mais óbvias. Numa eleição democrática, por exemplo, pode-se ganhar com 50 % + 1 dos votos. Ora, é óbvio que os outros 50 % - 1 não vão ficar satisfeitos e dependendo do caso podem fazer de tudo pra estragar as coisas.

Hoje com a disseminação da Internet, fala-se em democracia participativa no lugar da representativa, mas eu fico pensando: vez por outra vemos bate-bocas e agreções na câmara dos deputados, que tem pouco mais que 500 membros. Agora imagina só a confusão que não seria com duzentos milhões de brasileiros debatendo algum assunto ?

Nesse sentido, seria melhor que os países fossem desmembrados para facilitar as coisas, ou talvez dar mais autonomia aos estados, ou ainda para ficar perfeito, os indivíduos é que deveriam ter a maior autonomia de todas, seguidos pelas comunidades, pelos municípios, etc. A esfera federal deveria ter a menor autonomia de todas e não o contrário como vemos hoje.

O único problema é que no caso teria que ter um jeito de estabelecer regras universais para que o sistema não se quebrasse já que as preferências individuais poderiam entrar em conflitos insolucionáveis. Essas regras universais teriam que ser aceitas por todos e aí já temos o problema de como chegar a esse consenso, justamente por causa dessas diferenças grandes entre indivíduos.

[]'s
Cleverson