terça-feira, 30 de outubro de 2007

Cidade Maravilhosa

Uma coisa que eu não entendo muito bem, é porque carioca tem mania de dizer que o Rio não é perigoso, que é tudo um complô da grande mídia. Será? Deixem eu contar as minhas experiências.
Em 1980, fui num campeonato de esgrima no Flamengo. Pois bem, eu tinha uma tia que morava no Botafogo e no final das provas, a equipe foi comer uma pizza em Copacabana. Para quem não conhece as três praias são quase na seqüência, indo para o sul. Como já estava ficando tarde, resolvi descer do ônibus, pois naquela época não havia porteiro eletrônico e se fechassem o portão do prédio, eu iria ter dificuldades. Sorte minha, pois no ponto seguinte em que eu desci, assaltaram todos os meus colegas. Veja-se bem: há mais de um quarto de século já era assim.
Uns três anos mais tarde, eu estava com dois amigos em outro ônibus. Na nossa frente tinha uma moça com os óculos de sol na cabeça. Um cara colocou a mão para dentro da janela, simplesmente roubou os óculos e apanhou outro ônibus, sem que ninguém desse a menor bola.
Em 88, fiquei dois meses por lá, fazendo um curso no Aeroclube de Maricá e viajando quase que diariamente da casa dessa minha tia até aquela cidade. Nesses meus trajetos vi vários assaltos e gritos de pega-ladrão.
Na década de 90, ficou pior. Fui de carro prá Búzios, lá por 1994, e na volta, resolvi desviar do Rio, pela Baixada. Foi a primeira vez que vi policiais com armas de guerra nas estradas e com tábuas com pregos prontas paras serem puxadas para o meio da pista e assim furarem pneus de eventuais fugitivos.
Uns dois ou três anos depois, fui prá Angra e resolvi ir ao Rio. Para não me expor com automóvel, resolvi deixar num shopping e passear de metrô pelo centro. Lá pelas tantas, parado em uma estação, ouviu-se um tiro. A luz do vagão baixou e começou um corre-corre na plataforma. Todo mundo se atirou no chão. Era um assaltante que foi dominado e na confusão levou um tiro na perna. E eu ali, com uma camisa bem branquinha...
Na volta para Angra, passei por um presunto estirado no meio da estrada, logo ao sul do Recreio, com a polícia conversando como se fosse a coisa mais trivial do mundo.
Por fim, eu estava conversando em um chat na época em que começou a Internet com uma moça que morava em uma ruazinha calma do Flamengo e ela ficou me criticando quando eu contei essas histórias, falando que só podia ser azar o meu, pois isso nunca acontecia por lá, o Rio não era mais perigoso do que outras cidades grandes, aquela coisa... lá pelas tantas, ela demorou um tempão para responder. Quando voltou, perguntei o que tinha acontecido: “é que deu um tiroteio aqui na rua... isso nunca havia acontecido, você que deve atrair essas coisas!”
Se atraio, eu não sei, mas que o Rio de Janeiro é dose prá leão, isso ninguém me tira da cabeça.

2 comentários:

kleverson disse...

Estou contigo e não abro. Mas deixa só eu achar um sustento em outro lugar caso eu sobreviva até lá.

Abraço

Emilio Pacheco disse...

Em 1990 um ônibus em que eu estava no Rio de Janeiro foi assaltado da roleta (ou catraca) para trás e eu nem notei nada. Só não concordo contigo quando dizes que os cariocas não admitem. Para mim, sempre foram os primeiros a admitir. É que eles já se acostumaram, então fica aquela falsa sensação de segurança. Por exemplo, todos dizem que o centro de Porto Alegre está perigoso, que "não dá mais" pra andar lá, e eu trabalho lá e não tenho medo. Talvez tenha tido sorte, também. Ou quem sabe é a vantagem de ser gordo: os magros são mais visados, pois a aproximação é mais fácil e nunca se sabe se gordura não é músculo.